Pedro Rocha Franco -
Publicação: 21/03/2011 06:20 Atualização: 21/03/2011 07:49
![]() | ||||||||
| "É esperar Deus ajudar para ele voltar para casa. Está me fazendo uma falta danada", Ana Francelina, pensionista |
Suportar o comportamento agressivo do filho mais uma vez ou vê-lo atrás das grades. Por seis dias, a dúvida tirou o sono da pensionista Ana Francelina, que conseguiu coragem e forças para denunciar o filho à polícia. Aos 103 anos, ela clamou por socorro aos vizinhos, para que chamassem a Polícia Militar e contivessem a baderna feita pelo caçula dos 11 filhos. Depois de beber “água batizada”, ou simplesmente cachaça , Geraldo da Cruz Pereira, de 47, aprontou uma bagunça na casa e ameaçou pôr fogo num botijão de gás e explodir a casa com a família dentro. “Fiquei com medo de ele fazer alguma arte”, diz a senhora centenária. Casos como o da família Pereira se repetem diariamente em Belo Horizonte. Estatísticas da Secretaria Estadual de Defesa Social (Seds) mostram a ocorrência de cinco agressões a idosos por dia na capital, chegando a 1.817 no ano passado, fora os casos de subnotificações.
As ocorrências vão desde simples ameaças até casos de lesão corporal, calúnia e até assédio sexual, homicídio e estupro. Mas, como a maioria dos casos de violência contra idosos têm envolvimento de familiares, eles se sentem acuados em denunciar os agressores e preferem continuar convivendo com o problema a ver o agressor ser punido. Ainda assim, seja pelo aumento da população idosa, das ocorrências ou mesmo da coragem em denunciar, os registros têm aumentado: os números mostram que as denúncias feitas em 2010 superam em um terço as registradas entre 1999 e 2001, somando três anos.
Até hoje, quatro meses depois de o filho ser preso – ele estava foragido da Justiça por tentativa de homicídio –, Francelina não sabe se fez o certo e, provavelmente, desconhecia o rumo que o filho iria tomar. “Fiz novena para ele voltar. É esperar Deus ajudar para ele voltar para casa. Está me fazendo uma falta danada”, fala dona Ana, com seu cachimbo na mão e lenço na cabeça, que ela usa para disfarçar a idade. À época do fato, ela resumiu o que sentia no momento do registro do boletim de ocorrência: “Apesar de tudo, não posso falar nada contra ele. Mãe é mãe”.
Ameaças
Nascida em 26 de julho de 1907, Ana Francelina morava sozinha com o filho no Aglomerado da Serra e dependia dele para tarefas diárias. Mas, ao vê-lo quebrar objetos numa sequência enfurecida, teve de tomar uma decisão que, muitas vezes, os pais não têm coragem, tornando-se um caso emblemático em Minas, por ser a idosa mais velha a queixar-se na polícia. “Na maioria das vezes, a denúncia não é feita”, adverte a titular da Delegacia Especializada de Atendimento ao Deficiente e ao Idoso, Joana Margareth Penha.
Ela relata que os casos mais recorrentes são os de ameaça e lesão corporal e estão relacionados ao consumo de drogas e álcool. “O caso mais emblemático é quando um casal se separa por conta de desavenças e o filho retorna para a casa dos pais. Aí começa a usar o dinheiro da pensão da mãe para pagar despesas com drogas e álcool. Ou seja, a ex-mulher se livrou de um problema, mas ele não acabou. Agora é do idoso”, diz a delegada.
Invisíveis
Essa condição, segundo especialistas, revela a invisibilidade do idoso. Suas vontades e direitos têm pouca relevância para os filhos e netos e o uso indevido do dinheiro é só o primeiro fator de uma bola de neve que se cria aos poucos. Na sequência, é registrada uma agressão verbal até chegar à violência física e, em alguns casos, aos crimes tipificados como violentos – homicídio. “Quando a gente é velho, fica cada um por si. As pessoas acham que a velhice e a incapacidade física nunca vão chegar para ela”, afirma a presidente do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso e do Conselho Municipal do Idoso, Karla Cristina Giacomin.

Infelizmente a violência está presente, dentro de casa na própria família.
ResponderExcluirE muitas vezes não são denunciadas e temos noticias tristes de óbitos cadas vez maiores de pessoas da terceira idade.
É uma realidade chocante em nosso país e no mundo, principalmente das classes menos favorecida.