Entrevista com o Dr. Jean Carlo GorinchteynMédico do Instituto de InfectologiaEmilio Ribas e do Hospital São Camilo-Pompéia - SP e
Mestre em Doenças Infecciosas pela Coordenação do Instituto de Pesquisa da Secretaria
do Estado da Saúde de São Paulo – SP.
Vários fatores têm culminado no aumento de idosos contaminados pelo vírus HIV, como alterações no comportamento sexual surgidas com o lançamento de drogas para disfunção erétil. Para confimar a suspeita, o Ministério da Saúde realizou uma pesquisa em 2002, a qual revela que67% da população entre 50 e 59 anos de idade se diz sexualmente ativa; aqueles acima de 60 anos, 39% afirmam ter vida sexual. Esses resultados levam a necessária e urgente discussão sobre o avanço da Aids nesse público tão esquecido pelas campanhas de prevenção e visivelmente discriminado pela sociedade.
A revista Prática Hospitalar entrevistou o médico Dr. Jean Carlo Gorinchteyn, infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, com larga experiência no tratamento de pacientes com Aids na terceira idade. Durante a entrevista, o médico abordou o impacto da doença nessa faixa etária, as principais dificuldades para tratar esses pacientes, os cuidados e a necessidade de uma equipe multidisciplinar para tratá-los, além dos preconceitos, falta de apoio e abandono dos familiares. A seguir, os destaques da entrevista.
Prática Hospitalar - Qual o impacto da Aids na terceira idade?
Dr. Jean Carlo Gorinchteyn - A Organização Mundial da Saúde (OMS) conceitua, para os países em desenvolvimento, o idoso como sendo toda pessoa com idade igual ou superior a 60 anos. Ao longo da epidemia de Aids observou-se considerável elevação da incidência de pacientes neste grupo etário, representando nos dias de hoje cerca de 2,4% do total de pacientes contaminados. Isto se deve, sobretudo, à não inclusão deste grupo nas campanhas de prevenção, fazendo-os sentir-se à margem dos riscos de contaminação.
O impacto da Aids nesse grupo etário não representa apenas o diagnóstico da doença, mas o fato de se trazer à tona certos hábitos até então não revelados, como a sexualidade, escondida na pele enrugada e nos cabelos brancos, onde a libido é traduzida pelo preconceito.
P. H. - Qual o número de pacientes infectados com HIV na terceira idade?
Dr. Jean Carlo - Estima-se que existam cerca de 600.000 pacientes HIV/Aids contaminados em todas as faixas etárias, correspondendo a cerca de 14.000 pacientes com idade igual ou superior a 60 anos.
P. H - Em geral, como se dá a contaminação destes pacientes?
Dr. Jean Carlo - A contaminação destes pacientes ocorre, fundamentalmente, por relações sexuais, das quais as hetero e bissexuais são mais freqüentes, representando 43% dos 75% do total de casos relacionados a transmissão sexual. A contaminação por sangue/hemoderivados e as relações sexuais homossexuais foram comuns no início na década de 1980, com modificação semelhante à observada em pacientes adultos jovens, quando houve heterossexualização da epidemia.
P. H. - Quais fatores contribuíram para o aumento do número de pacientes com Aids nesta faixa etária?
Dr. Jean Carlo - A não inclusão deste grupo etário em campanhas de prevenção fez com que estas pessoas se sentissem à margem dos riscos de serem contaminadas pelo HIV, e assim continuassem se expondo desprotegidas em suas relações sexuais. É importante lembrar que o preservativo, para este grupo etário, por se tratar de artefato pouco utilizado ao longo de suas vidas, acaba por configurar dificuldade técnica na suautilização. Alia-se ao seu conceito, meramente anticonceptivo, e ao receio de perda de ereções efetivas, que resultam no seu desuso. Atualmente, a utilização de drogas corretivas de distúrbios eréteis passou a ser fator relevante, encorajando-os no aumento do número de exposições sexuais, com conseqüente desproteção, fato que repercutirá, futuramente,na elevação das estatísticas de HIV/Aids.
P. H. - Quais doenças podem estar associadas ao HIV nesta faixa etária?
Dr. Jean Carlo - As doenças oportunistas que acometem o indivíduo idoso são as mesmas que acometem um adulto jovem, porém o grande problema é que algumas delas, como a pneumocistose, por exemplo, podem passar despercebidas pelo clínico, frente aum paciente idoso semconhecimento da positividade sorológica para o HIV, que, possivelmente, a considerará como se tratandode uma pneumonia grave em paciente debilitado. O mesmo ocorreria nos quadros demenciais que poderiam ser tratados como um quadro de demência de outra etiologia, que não aquela relacionada ao HIV,não diagnosticando ou postergando o tratamento específico, comprometendo, assim,o prognóstico deste doente.
Isto poderia justificar as baixas cifras brasileiras em comparação àquelas apresentadas pela literatura americana, que revela haver cerca de 4% do total de casos de pacientes idosos. Deve-se, porém, salientar que para países desenvolvidos, a OMS considera como idosos aqueles indivíduos com idade igual ou superior a 65 anos.
P.H. - Qual a dificuldade de tratar essas doenças?
Dr. Jean Carlo - A dificuldade de tratar este grupo etário é a presença de doenças metabólicas e do próprio envelhecimento, que comprometem a escolha da terapêutica anti-retroviral, especialmente pela necessidade de utilização de drogas anti-retrovirais promotoras deefeitoscolaterais, como toxicidade mitocrondial elipodistrofia, o que agravaria as alterações preexistentes. Alia-se ao fato quemuitospacientes têm seu diagnóstico estabelecido tardiamente, apresentando-se com doenças oportunistas, elevando-se, assim,os índices de morbimortalidade e dos interferentes do próprio tratamento.
P. H. - Como deve ser a abordagem ou cuidados no tratamento destes pacientes?
Dr. Jean Carlo - Os pacientes idosos devem merecer atendimento pormenorizado, respeitando-se não só suas limitações físicas, como necessidades individuais, preocupando-se, inclusive, com suporte psicológico e social. A abordagem multidisciplinar é de fundamental importância, devendo-se ter retornos clínicos e exames laboratoriais periódicos, com intervalos mais curtos, além demétodos de diagnóstico de apoio mais específicos, como por exemplo densitometria óssea, além daqueles de avaliação virológica e imunológica. A avaliação psicológica, da assistentesocial e nutricional são, igualmente, importantes para detectar eventuais condições que comprometam o sucesso do tratamento instituído.
P. H. - Por que estes pacientes nunca estiveram no foco das campanhas de prevenção?Dr. Jean Carlo - As campanhas veiculadas pela mídia para conscientização da necessidade de sexo protegidoforam de fundamental importância na modificação de práticas sexuais nas várias categorias de exposição, especialmente para os homossexuais, que modificaram seus hábitos, não só comuso de preservativo, como com a redução do número de parceiros nas suas relações, tendo como conseqüência o declínio no número de pacientes HIV/Aids deste grupo. Por outro lado, houve elevação de pacientes pertencentes a outras categorias, como os heterossexuais, que se consideravam distantes dos riscos por acreditarem se tratar de doença relacionada à homossexualidade. É importante lembrar que a Aids fora considerada no início da epidemia como sendo “epidemia gay”. Isso resultou na necessidade de readequação das campanhas publicitárias, expondo claramente os riscos também para este grupo.
A utilização de jovens nas propagandas impede, ao idoso, a percepção de ser, também ele, de risco para contrair o vírus do HIV, afastando-o, assim, dessa realidade. De certa forma, isto se traduz pela dificuldade de tocarpublicamente em questões de sexualidade do idoso, até então silenciosa, como suas preferências e práticas sexuais. Trata-se de um grande tabu, que esbarra no preconceito, não só da sociedade geral, como por parte dos próprios idosos.
P. H. - O tratamento para o HIV é o mesmo para esta faixa etária?
Dr. Jean Carlo - O tratamento de idosos com HIV/Aids é, absolutamente, semelhante àquele instituído aos pacientes de outras faixas etárias, exceto a faixa etária pediátrica, onde algumas drogas não são utilizadas. A escolha da terapêutica anti-retroviral deverá considerar as condições clínicas, imunológicas e virológicas do paciente por ocasião do diagnóstico, assim como considerar a presença de co-morbidades, sejam estas oportunistas ou não, como diabetes, dislipidemias, hipertensão arterial, etc., visando, assim, reduzir os riscos de agravo de doenças preexistentes, além de obter de forma mais precoce a reconstituição imunológica.
P. H. - A adesão destes pacientes ao tratamento é mais fácil ou mais difícil que naqueles de outras faixas etárias?
Dr. Jean Carlo - A adesão é variável, dependendo de fatores culturais e sociais, que incluem aspectos como hábitos e os vícios, semelhantemente do que ocorre nos pacientes adultos jovens. Usuários de drogas e etilistas tendem a ter uma menor adesão ao tratamento, assim como aqueles com condições sociais e culturais desfavoráveis, como moradores de rua e analfabetos, por exemplo.
Outro aspecto importante é a estrutura familiar; aqueles pacientes que recebem apoio familiar tendem a ter uma maior adesão ao tratamento se comparados àqueles institucionalizados, moradores solitários ou abandonados pelos familiares.
P. H. - Como a família reage com o diagnóstico de um familiar idoso portador do vírus HIV?
Dr. Jean Carlo - A reação da família ante o conhecimento da positividade do HIV em um de seus integrantes idosos segue dois momentos. No primeiro, indignação e a surpresa, especialmente por se ter revelado hábitos, até então desconhecidos, como a sexualidade, que, geralmente, acontece fora do âmbito conjugal. Segue-se, então, a aproximação destes para com o paciente, traduzida pela preocupação e o envolvimento dos familiares no tratamento. É claro que as relações familiares prévias são definidoras do tipo de resposta. Assim sendo, aqueles que tinham laços de afetividade bem solidificados tendem a superar com mais facilidade tal situação, diferentemente daqueles cujos relacionamentos já eram precários, que tendem ao abandono.
P. H. - Os pacientes sofrem preconceitos?
Dr. Jean Carlo - A pessoa idosa, em nosso país, já é passível de discriminação, independente de se ter ou não saúde, o que dirá se considerarmos um idoso doente, decorrente arelações sexuais ou do uso de drogas. Certamente, estamos diante de uma situação bastante polêmica, ondeos preceitos da ética, moralidade, religiosidade e dos padrões de bons costumes deveriam virà tona para serem discutidos. Isto resulta no seu afastamento domeio social e até mesmo familiar, postura que muitas vezes é adotada eescolhida pelo próprio paciente, que busca se resguardar frente a estas adversidades.
P. H. - Existem ambulatórios especializados para o tratamento desses pacientes?
Dr. Jean Carlo - Pelo fato de estes pacientes exigirem cuidados especiais, alguns serviços, incluindo o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, criaram atendimento ambulatorial direcionado a este grupo etário, garantindo atenção diferenciada, com prolongamento de horários dos atendimentos, com maior freqüência entre as consultas, além de avaliação multidisciplinar concomitante. A detecção de condições sociais complicadoras requer atenção especial da assistência social, incluindo encaminhamento destes para casas de apoio ou núcleos especializados.
P. H. - Na sua opinião, com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, quais os rumos que a Aids pode tomar?
Dr. Jean Carlo - Certamente teremos uma elevação do número de casos de pacientes deste grupo etário, o quese deve não somente ao aumento da expectativa de vida da população geral, como também ao aumento da expectativa de vida dos pacientes soropositivos, decorrente dos avanços das terapêuticas anti-retrovirais assim, pacientes na quarta e quinta décadas atingirão a sexta década, colaborando infelizmente com a elevação das estatísticas de Aids nos idosos.
Quando iriamos imaginar que um vovô ou vovó iria contrair uma doença sexualmente transmissivel? pois é esse número está aumentando cada vez mais, isso devido a falta de orientação aos idosos. Assim como qualquer pessoa comum muitos tem a vida sexual ativa e não tem essa visão do quão importante é se prevenir das DTS.Muitos idosos homens principalmente não tem essa noção, acham que é bobagem usar camisinha, que isso jamis vai acontecer com eles, que nã época deles isso não existia então por que tem que usar hoje?
ResponderExcluirTemos que fazer campanhas e mobilizar a terceira idade de que AIDS existe e mata e que sexo seguro é com proteção.
Mas qual é a relação desta notícia com seu TFG. como incorporar argumentos à monografia?
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